domingo, 10 de outubro de 2010
"O DESTINO DE POLLY"
CAP. 8
-Pra donde nois vai? - indagou a esposa, com a filha sentada apertadamente entre os pais na ve
lha pampa caindo aos pedaços.
-Vamo percurá um lugar quarqué - voltou ele a dizer - já disse qui nois tem qui aprendê a si virá na vida, pode sê até dibaxo di ponte, nois já tá ferrado mermo!
-O importante é ficá longe di Cruis-Credo i daquela tar dotora - murmurou D. Lolita. Polly per
manecia calada, sonhando com os momentos passados com Neeor, a médica tratando-a com cari
nho e dizendo sobre adotá-la, mas os pais estavam tornando tudo impossível propositalmente, mudando-se sem avisar os antigos vizinhos.
-Pára di sonhá acordada, minina - retrucou a mulher, descendo a mão com força na cabeça da filha.
-Aquela dona dotora nunca vai te percurá, ninguém ti qué, mete isso no raio da tua mardita ca
chola - continuou o pai, dando-lhe mais uns cascudos no mesmo lugar onde a esposa lhe batera - abre esses zoio e oia pra frente!
A menina passou a mão no lugar onde apanhara, mas a mãe a repreendeu, puxando o braço com força e sem piedade.
-Tira a mão daí, é pra duê mermo, ocê merece, sua mardita disinfeliz!
Polly abaixou a cabeça para que ninguém visse suas lágrima escorrendo, mas os dois logo nota
ram. Estavam agora fora da dutra, em uma estrada qualquer de serra e, naquele momento, qua
se não passava ninguém, além de ser noite. De um lado havia morro e de outro, um enorme e fundo barranco, cheio de eucaliptos altos e outras diversas árvores. Seu José então parou a cami
nhonete em um pedaço de acostamento de terra próximo ao barranco e desceu, puxando a filha com violência pelo braço.
-Desce logo, sua idiota- gritou ele - anda logo!
Ela não teve outra saída a não ser obedecer. Puxada pelo pai, saiu do carro. Então, ele a arrastou até o barranco e, olhando para todos os lados e para a noite quase chegando, e notando que não passava ninguém, jogou violentamente a filha, que rolou barranco abaixo. Retornou ao carro, en
trou, fechou a porta enquanto a esposa gritava, deu a partida e arrancou cantando pneus.
-Morre, apodrece sua mardita vaca disgraçada, FDP! Num queremo ocê mermo!
Como havia dito, o homem deu a partida e arrancou logo dali, continuando a viagem sem sequer notar que havia um carro parado mais ao longe, onde alguém a bordo observava e filmava tudo discretamente. Logo aproximou-se, guardou a câmera e desceu do Gol Seleção preto de vidros fumê. De calça jeans escura, Nike preto e camisa polo branca de mangas curtas, sua pele negra brilhava sob a luz da lua, que também iluminava agora o barranco. Munindo-se da lanterna que carregava sempre consigo no carro, Imperator Salvatore desceu cuidadosamente e abaixou-se, examinando a criança, verificando se não havia qualquer fratura. Por milagre, não, porém muitas escoriações e hematomas muito fundos. Com muito cuidado, tomou-a nos braços e, com a lanter
na presa á cabeça, subiu com a agilidade e rapidez de um gato. Puxou a porta traseira e colocou a pequena Polly deitada e segura com o cinto sobre um cobertor para não feri-la ainda mais do que já estava. Sentou-se depois em seu lugar, colocou o cinto, fechou a porta e deu a partida. Fazendo um balão, ele retornou para o sentido em que vinha, de volta para casa. Na velha picape, bem mais longe, José e Lolita finalmente abriram a boca para falar.
-Acho qui nois num divia fazê aquilo - ponderou a esposa - jogá a infiliz fora, argém pode achá e pegá ela!
-HAHAHA - riu o marido com gosto - si nois num qué a mardita, quem mais ia querê?
-Num sei... com tanta noticia di gente percurando fiote pra mor di adotá por aí... arguém pode pe
gá ela i fazê filiz, com os sonho virando vredade, acontecendo
-Sei não. Quem ia...?
-Aquela tar dotora i aquele brucutu na sala dela aquele dia - lembrou-lhe a esposa - lembra co
mo ele agiu cum nois?
-Putz, ocê tá certa, muié! Mais vamo pensá no pior: qui arguém ruim pegô ela i vai tratá como nois tratava, ou até qui ela apodreceu i bateu as bota!
Meu Deus! Que pais desejam essas coisas a um filho e ainda faz o q ue esse casal fez, abandona jogado por aí em beira de estrada, em córrego de esgoto...? É realmente para chorar, pior que infelizmente há muitos casos assim por aí, alguns até muito piores. Mas o destino da pequena Pol
ly mudará nas mãos desta nova família. Porém, desafios, obstáculos e perigos também surgirão adiante.
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