domingo, 10 de outubro de 2010

"O DESTINO DE POLLY"

CAP. 3 Era dia seguinte, ás 6 da manhã e algum galo da vizinhança cantava alto, provocando o costumei ro mau humor no casal. -Mardito galo, puta qui pariu - reclamou José, pulando da cama. Além de tudo, eram ateus, não acreditavam em Deus, nem em nada. Já acreditaram, mas como nada de bom acontecera na vi da, a família deixou a fé de lado. Então, não viam mal algum em xingar ou fazer o que quisessem. Mas só diziam á filha que Ele castigava apenas para desencorajar de coisas que considerassem proibidas, como perder tempo brincando e sonhando distraída pelos cantos da casa. Polly ainda dormia, sonhando com uma vida melhor e normal como qualquer criança merece ter, com amor e carinho da família, indo á escola, onde aprendia e brincava com outras crianças. -Vou acordar a priguiçosa da Polly - disse a mãe. -Dexa qui eu acordo, arranco a peste da cama imediatamente - ofereceu-se o esposo. Ela sonhava que alguém ainda a salvaria dessa vida de agressões, humilhações e rejeição, dando-lhe uma vida diferente e melhor. Seus pais nunca quiseram filhos, mas como não possuíam ins trução ou informação alguma, deitaram-se juntos sem qualquer método de prevenção, e Lolita engravidou. Sentiu tonturas e enjoos durante toda a gestação e quase morreu, sobrevivendo so mente por que uma vizinha a carregou ás pressas para o único hospital da vila e Polly nasceu. Foi o primeiro nome que viera á mente, sem nunca o terem visto ou ouvido em lugar algum. E logo vieram os maus tratos e agressões, negligência e rejeição que a menina aprendeu a enfrentar ainda bebê. Nunca se importavam ou lembravam se ela estava alimentada, de roupa trocada e fralda limpa. Tudo era doação da vizinhança, pois o dinheiro que arrecadavam com a venda de pouquíssimas frutas e hortaliças do pequeno pomar mal dava para pôr comida á mesa. A porta do quarto foi violentamente aberta e a menina ainda se encontrava na cama, dormindo e sonhan do. -Sonhando di novo, imprestável - trovejou o pai, cuspindo-lhe as palavras e arrancando-lhe o único fino e velho cobertor que cobria o pequeno corpo, que agora tremia. E ainda a fez pegar um resfriado, o nariz fungando e escorrendo. E logo, uma tosse chata começava a incomodar. -Vai logo! Hoje, ocê vai pro trampo di bucho vazio, sem botá nada na boca pra aprendê a pulá da cama na hora certa i pará di ficá sonhando cum bestage! A menina levantou-se lenta e sonolentamente e foi lavar o rosto. Ainda estava escuro e muito frio, mas ela era diariamente obrigada a trabalhar lá fora na roça, com a única roupa que possuía: camiseta velha e rasgada, bermuda desbotada e chinelos de dedo. Nada de roupas e sapatos quentes. Enquanto capinava, recordava-se do sonho que tivera, que uma pessoa boa aparceria e a salvaria. Mas na realidade, isso nunca acontecia e seus pais caçoavam de seus sonhos com o prazer de humilhá-la. Diziam que nada de bom se realizaria em sua vida e que, se ficasse triste e chorasse, apanharia até sair a pele e ficar em carne viva. Mas um dia aconteceu. Claro, não foi exatamente como Pollynha imaginava. Ela conhecera alguém que ainda a salvaria definitivamen te. Foi quando a gripe que pegara ficou mais forte e a vizinha, mãe de uma daquelas outras crianças, aproveitou a ausência dos seus pais e a pegou, levando-a a um consultório médico na capital, onde ela nunca havia ido. E sozinhas, pois a filha dessa vizinha estava na escola naquele momento.

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